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domingo, 23 de julho de 2017

Cadafalso






Ainda bem que Deus não inventou a vida pra ser eterna
Para ser uma eterna vida movediça
Então que a eterna vida que porventura houver criado
seja da mesma matéria de que são feitos os sonhos
Fumaça que enquanto dura não passa
Mas resiste ao tempo e proíbe o ponteiro
A andar para frente ou para trás
Mas é sempre e sem dor
Não que eu quisesse fugir da frustração e negar o prazer
Mas se posso por um segundo viver Lacan ou Freud
Como Alice se escondeu do Corvo
Respeitar o medo, aceitando a impotência
Entender a inaptidão para existir tão latente na superfície
instável das coisas e, diante do que tão falaciosamente real vemos,
me esconder
Para depois levantar e seguir de novo
Pois só nesse momento sou grande
Quando ignoro o reflexo do arroio
E me compreendo tão claramente pequeno
E seguir em frente, por outro caminho...

Um lugar melhor?
Um lugar realmente bom?
Seria melhor estar morto alguém que pensa estar vivo?
Que é a eternidade do eterno inferno?
E quando o inferno está temporariamente em nós?
Não, céu não é ser eterno
É viver com querer e poder sem sofrer
Mesmo que seja num tempo precário
Não existe céu se tenho que sublimar em arte meu desejo

Viver, então, é buscar sempre um paraíso
Nessas eternidades passageiras
Como a eternidade que há no intervalo imortal entre o que escreve e o que lê
Para ser intelectualmente perpetrado frente às ninharias passageiras
Vaga, memória...
Feita da covardia ou do medo
Não vou viver para me lembrar se eu chegar a aprender pelo quê...
Mas Nietzsche dizia que o nosso tempo é o tempo do agora, sempre presente
Você que me lê, saiba que o meu tempo acabou...
Não, ele nunca existiu...
Existe só o tempo em que se lê, o agora...
E o que fazer do intervalo entre a leitura do que ainda não se escreveu
e a escrita do que ainda ninguém leu?
Quanto ao corpo deteriorado do poeta que renasce em cada verso que se lê agora?
Memória? 

- Danillo Macedo -