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Acabei por achar sagrada a desordem do meu espírito - Arthur Rimbaud - Ele se sente atraído por ela como, por Vênus, Adônis ...

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sábado, 9 de setembro de 2017

Halana Guerra


Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. (Milan Kundera)



O amor tem tantas faces que nos enganam

O amor não tem nenhuma face

Não possui aparência mundana



Não sei que é isto de fazer sem ter feito

De ser sem ter sido

Amar o prazer não é amar

O sofrimento existe para por termo

No que aflora apenas os biltres abraços da mesquinharia

O desejo medra o medo

E sucumbe à resistência por zelo

Que é o amor?



De tempo em tempo

Não sei do que se trata

Pessoas vivem-no?

Ele é coisa dos vivos?

Ele é coisa da alma?

A alma é coisa de quem?



Talvez seja possível, no empreendimento do raciocínio, concebê-lo

Sabendo-se o que não poderia jamais ser

Saber-se-ia melhor elucidar o que é isto de ser e não ser



Sei que amar é amaro quando do paladar rasteiro

Que causa quizilenta dor

É fogo que queima sem sentir e sem se ver

Mas, nada consome de perene, pois o amor restaura

Tudo quanto se perde é mesquinharia falaz

Esvai-se na chama espúria



O amor não é deste fogo que se apaga

É fogo que se esconde

Para te penetrar promíscuo pelas arestas

E te faz fogo, fogo com fogo

Que arde, mas nem tudo queima

Não pode ser coisa deste mundo

Posto que, quanto mais arde menos se extingue

Não foge, não se desfaz

Ele é feito de dois corpos que ocupam o mesmo espaço

Quando parece ausente, é porque sempre esteve presente

É dessas presenças discretas, que não são vistas do olho abalado pela rotina

Havendo-se sempre

Dinâmico, inerte, constante

Ele te vê de qualquer lugar e te conhece mais que tu mesmo

Viu-te nascer e, desde então, te encomendou, de si mesmo, o mais verdadeiro sentimento (talvez o único verdadeiro...)



Quando pareceu covarde, foi cauteloso

Quando instalou o silêncio mais profundo, foi o barulho pueril do dia a dia que não o permitiu ser notado

Quando o abandonaste, ele permaneceu te espreitando dos lugares menos observados

Como na forma da flor que rompeu a calçada



Lana,

Não foi amor da tua parte

No teu nome tem “guerra”

Guerra sem causa, como todas as guerras

Sem inimigo preciso

E sem vencedor

Como todas as disputas humanas

Como as doenças que são o corpo matando o próprio corpo



Que coisa simples é o amor

E é por isso mesmo que ele não se sustenta nas coisas do mundo

Pois ele é simples, mas é profundo

E seguiu o rasto descaminhado de alguma estrela



Teus olhos castanhos

Teu corpo trigueiro

O hálito quente

O beijo sincero

A natural volúpia

Tudo em troca de ideais confusos



Que traidor é o homem do próprio homem

Que inventou prédios, sistemas complexos de rádio

Mas, também inventou seus próprios erros

Nasce a culpa quando olhamos o manual e vemos que fizemos tudo ao contrário

O maior erro é ouvir os outros e trair nossas próprias intuições

A culpa nasce do ruído de tantas sugestões

E delas o fio de náilon que escraviza nossas ações



Fui condenado e julgado por acusadores e juízes

Que vendem ideais de paraísos aos quais eles próprios não iriam entrar

E o sonho se desfez

Do corpo e da alma

Talvez não fosse sonho

E que se dane o paraíso de merda que os puritanos prometem

A escada do paraíso não é a mesma que leva ao palanque onde falam porcos que querem ser gente

Gosto da lavagem e da lama

E meu paraíso é me chafurdar no lixo

Tenho fé em mim e no Deus de todos

Não preciso sublimar a fé para ganhar dinheiro

Nem ter duas vidas: uma que não posso ter, mas prego

E outra, a merda de vida hipócrita que levo



E se a merda de vida que levo deixar de ser hipócrita?



Querem cortar minha cabeça e servir numa bandeja

Querem me seguir, trocando um ídolo por outro



Viva a merda de vida que resta com intensidade

Faça, nela, somente aquilo que, dizia Nietzsche, parafraseado por Clóvis (apenas um conselho instável, de uma paráfrase imperfeita) der vontade de fazer e refazer infinitas vezes nesse tempo finito em que tudo retorna (dizia Kundera), embora nada perdure no instante do retorno



Deixem minha consciência em paz

Que coisa nobre a consciência

Atormentada por oportunistas, exaure as forças do homem



O amor endeusa, às vezes

E deixa de ser amor

O amor verdadeiro ama o lixo e ama a flor



Amei-te como Orfeu

Tendo, de Aristeu, as abelhas sufocantes

Eu, que fui o Aristeu

Que te viu aprisionada no fundo fino corpo de um fantasma

Que abria os olhos para me ver

Que movia os lábios para me dizer

Que estendia as mãos para me tocar

Mas, voltaste ao casulo escuro de uma vida cinza

Para se convencer de que fui um erro

Como quem luta contra anábases

Tal câncer no mais imaculado ser

Tendo sido esta a tua prisão

Não as lágrimas de ferro de uma falsa comoção

Senão esta apatia anêmica animada por uma vida de cores desbotadas



Não tente lavar um tecido limpo

Com nódoas em tuas mãos

Um cavalo atolado na lama

Quanto mais caminha, mais afunda

Quanto mais limpa, mais suja

Quanto mais tira, mais coloca

E te colocas no vazio cheio de merda que a vida te soçobra

Uma corda que devesse ser trocada para harmonizar o som do ruidoso cordofone

O mesmo som para o qual os ouvidos vedavas

Quando te cominava um coração mais ameno

Que silenciado, no entanto, sobejava-te ouvir o que outros ainda não têm para dizer



“Não esqueças de que não te esqueci

“Sei que podes

“Não esqueças de que tudo quanto pareceu errado

“Ao menos foi verdadeiro

“Não sei se podes, Halana Guerra,

“Mas eu não me esqueci”







- Danillo Macedo -

Debaixo da ponte


Carlos Drummond de Andrade

Moravam debaixo da ponte. Oficialmente, não é lugar onde se more, porém eles moravam. Ninguém lhes cobrava aluguel, imposto predial, taxa de condomínio: a ponte é de todos, na parte de cima; de ninguém, na parte de baixo. Não pagavam conta de luz e gás, porque luz e gás não consumiam. Não reclamavam contra falta dágua, raramente observada por baixo de pontes. Problema de lixo não tinham; podia ser atirado em qualquer parte, embora não conviesse atirá-lo em parte alguma, se dele vinham muitas vezes o vestuário, o alimento, objetos de casa. Viviam debaixo da ponte, podiam dar esse endereço a amigos, recebê-los, fazê-los desfrutar comodidades internas da ponte.

À tarde surgiu precisamente um amigo que morava nem ele mesmo sabia onde, mas certamente morava: nem só a ponte é lugar de moradia para quem não dispõe de outro rancho. Há bancos confortáveis nos jardins, muito disputados; a calçada, um pouco menos propícia; a cavidade na pedra, o mato. Até o ar é uma casa, se soubermos habitá-lo, principalmente o ar da rua. O que morava não se sabe onde vinha visitar os de debaixo da ponte e trazer-lhes uma grande posta de carne.

Nem todos os dias se pega uma posta de carne. Não basta procurá-la; é preciso que ela exista, o que costuma acontecer dentro de certas limitações de espaço e de lei. Aquela vinha até eles, debaixo da ponte, e não estavam sonhando, sentiam a presença física da ponte, o amigo rindo diante deles, a posta bem pegável, comível. Fora encontrada no vazadouro, supermercado para quem sabe freqüentá-lo, e aqueles três o sabiam, de longa e olfativa ciência.

Comê-la crua ou sem tempero não teria o mesmo gosto. Um de debaixo da ponte saiu à caça de sal. E havia sal jogado a um canto de rua, dentro da lata. Também o sal existe sob determinadas regras, mas pode tornar-se acessível conforme as circunstâncias. E a lata foi trazida para debaixo da ponte.

Debaixo da ponte os três prepararam comida. Debaixo da ponte a comeram. Não sendo operação diária, cada um saboreava duas vezes: a carne e a sensação de raridade da carne. E iriam aproveitar o resto do dia dormindo (pois não há coisa melhor, depois de um prazer, do que o prazer complementar do esquecimento), quando começaram a sentir dores.

Dores que foram aumentando, mas podiam ser atribuídas ao espanto de alguma parte do organismo de cada um, vendo-se alimentado sem que lhe houvesse chegado notícia prévia de alimento. Dois morreram logo, o terceiro agoniza no hospital. Dizem uns que morreram da carne, dizem outros que do sal, pois era soda cáustica. Há duas vagas debaixo da ponte.





ANDRADE, Carlos Drummond de Andrade. Obra Completa. Rio de Janeiro:

José Aguilar Editora, 1967

domingo, 23 de julho de 2017

Cadafalso






Ainda bem que Deus não inventou a vida pra ser eterna
Para ser uma eterna vida movediça
Então que a eterna vida que porventura houver criado
seja da mesma matéria de que são feitos os sonhos
Fumaça que enquanto dura não passa
Mas resiste ao tempo e proíbe o ponteiro
A andar para frente ou para trás
Mas é sempre e sem dor
Não que eu quisesse fugir da frustração e negar o prazer
Mas se posso por um segundo viver Lacan ou Freud
Como Alice se escondeu do Corvo
Respeitar o medo, aceitando a impotência
Entender a inaptidão para existir tão latente na superfície
instável das coisas e, diante do que tão falaciosamente real vemos,
me esconder
Para depois levantar e seguir de novo
Pois só nesse momento sou grande
Quando ignoro o reflexo do arroio
E me compreendo tão claramente pequeno
E seguir em frente, por outro caminho...

Um lugar melhor?
Um lugar realmente bom?
Seria melhor estar morto alguém que pensa estar vivo?
Que é a eternidade do eterno inferno?
E quando o inferno está temporariamente em nós?
Não, céu não é ser eterno
É viver com querer e poder sem sofrer
Mesmo que seja num tempo precário
Não existe céu se tenho que sublimar em arte meu desejo

Viver, então, é buscar sempre um paraíso
Nessas eternidades passageiras
Como a eternidade que há no intervalo imortal entre o que escreve e o que lê
Para ser intelectualmente perpetrado frente às ninharias passageiras
Vaga, memória...
Feita da covardia ou do medo
Não vou viver para me lembrar se eu chegar a aprender pelo quê...
Mas Nietzsche dizia que o nosso tempo é o tempo do agora, sempre presente
Você que me lê, saiba que o meu tempo acabou...
Não, ele nunca existiu...
Existe só o tempo em que se lê, o agora...
E o que fazer do intervalo entre a leitura do que ainda não se escreveu
e a escrita do que ainda ninguém leu?
Quanto ao corpo deteriorado do poeta que renasce em cada verso que se lê agora?
Memória? 

- Danillo Macedo -