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Ela e Ele

Acabei por achar sagrada a desordem do meu espírito - Arthur Rimbaud - Ele se sente atraído por ela como, por Vênus, Adônis ...

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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Degredo





Como o pungente presságio do címbalo que
Alarma o escaldo do tolo do Tempo
São estrépitos impudicos, o imo a fremir
Quis dizer assim: um degredado pensamento

Assim como a fênix dispersa em zênite pluvial
É aquele que se inflama sem teu conhecimento
Como o caracol invisível na cerração matinal
É este espasmo elucubrar sem teu envolvimento

Assim como o presságio do mal, Senhora
Como eu já houvera dito
Quando o bronze soa indicando o fim desta hora
Soa dizendo a si: “não sirvo pra mais que isto!”

Assim, foi por isso que disseram outrora:
“Conheço tudo, mas sou um miserável sem amor”
Como o bronze que ressoa este choro estrupido
Não te sirvo, a não ser pra fecundar tua dor!

Assim como o escalpelo de oblongas incisões
Enquanto a epiderme sequer sente o bisturi atroz
Sou eu ao concatenar tão confusas canções
Sem teu toque a aprovar o eflúvio de minha voz!




Prof. Me. Danillo M. L. Batista

domingo, 12 de novembro de 2017

A uma passante, de Charles Baudelaire


Tradução de Ivan Junqueira


A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania, 
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz... e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!





domingo, 22 de outubro de 2017

A viagem







Meu sangue, do pragal das Altas Beiras,
boiou no Mar vermelhas Caravelas:
À Nau Catarineta e à Barca Bela
late o Potro castanho de asas Negras.
E aportou. Rosas de ouro, azul Chaveira,
Onça malhada a violar Cadelas,
Depôs sextantes, Astrolábios, velas,
No planalto da Pedra sertaneja.
Hoje, jogral Cigano e tresmalhado,
Vaqueiro de seu couro cravejado.
Com Medalhas de prata, a faiscar,
bebendo o Sol de fogo e o Mundo oco,
meu coração é um Almirante louco
Que abandonou a profissão do Mar.
– Ariano Suassuna, “Dez Sonetos com Mote Alheio”. Recife: edição manuscrita e iluminogravura pelo autor, 1980. 

sábado, 9 de setembro de 2017

Debaixo da ponte


Carlos Drummond de Andrade

Moravam debaixo da ponte. Oficialmente, não é lugar onde se more, porém eles moravam. Ninguém lhes cobrava aluguel, imposto predial, taxa de condomínio: a ponte é de todos, na parte de cima; de ninguém, na parte de baixo. Não pagavam conta de luz e gás, porque luz e gás não consumiam. Não reclamavam contra falta dágua, raramente observada por baixo de pontes. Problema de lixo não tinham; podia ser atirado em qualquer parte, embora não conviesse atirá-lo em parte alguma, se dele vinham muitas vezes o vestuário, o alimento, objetos de casa. Viviam debaixo da ponte, podiam dar esse endereço a amigos, recebê-los, fazê-los desfrutar comodidades internas da ponte.

À tarde surgiu precisamente um amigo que morava nem ele mesmo sabia onde, mas certamente morava: nem só a ponte é lugar de moradia para quem não dispõe de outro rancho. Há bancos confortáveis nos jardins, muito disputados; a calçada, um pouco menos propícia; a cavidade na pedra, o mato. Até o ar é uma casa, se soubermos habitá-lo, principalmente o ar da rua. O que morava não se sabe onde vinha visitar os de debaixo da ponte e trazer-lhes uma grande posta de carne.

Nem todos os dias se pega uma posta de carne. Não basta procurá-la; é preciso que ela exista, o que costuma acontecer dentro de certas limitações de espaço e de lei. Aquela vinha até eles, debaixo da ponte, e não estavam sonhando, sentiam a presença física da ponte, o amigo rindo diante deles, a posta bem pegável, comível. Fora encontrada no vazadouro, supermercado para quem sabe freqüentá-lo, e aqueles três o sabiam, de longa e olfativa ciência.

Comê-la crua ou sem tempero não teria o mesmo gosto. Um de debaixo da ponte saiu à caça de sal. E havia sal jogado a um canto de rua, dentro da lata. Também o sal existe sob determinadas regras, mas pode tornar-se acessível conforme as circunstâncias. E a lata foi trazida para debaixo da ponte.

Debaixo da ponte os três prepararam comida. Debaixo da ponte a comeram. Não sendo operação diária, cada um saboreava duas vezes: a carne e a sensação de raridade da carne. E iriam aproveitar o resto do dia dormindo (pois não há coisa melhor, depois de um prazer, do que o prazer complementar do esquecimento), quando começaram a sentir dores.

Dores que foram aumentando, mas podiam ser atribuídas ao espanto de alguma parte do organismo de cada um, vendo-se alimentado sem que lhe houvesse chegado notícia prévia de alimento. Dois morreram logo, o terceiro agoniza no hospital. Dizem uns que morreram da carne, dizem outros que do sal, pois era soda cáustica. Há duas vagas debaixo da ponte.





ANDRADE, Carlos Drummond de Andrade. Obra Completa. Rio de Janeiro:

José Aguilar Editora, 1967

sábado, 22 de julho de 2017

Circe





 Parte I

Éclatement

Ménades
Vieram comigo
Escorregar
Pelo corpo, o fino feitiço
De desejo
Para esfumaçá-lo
E o esfumaçava
Com fluidos, colágenos
E adereços
Embaraçados nos dedos
Enquanto, do teto, ouvia-se
Criaturas celestes...




Parte II

Déchaîner

Eu, preso no espelho, vendo-me
Do lado de fora, de mim
E Circe, da janela
Lua Nova
Escondia sua face lá dentro

Do teto, os passos
Das lâminas, os poucos feixes de luz
Com que os versos desciam e entrecortavam
O parco sabor de amor encantatório
No que eram convertidas as falsas
Promessas mundanas

Ofereciam pedaços de poesia
A cada boca sedenta
Enclausurada

Não podia deixá-la entrar
Mas, embebia-me do seu veneno
Que vinha do hálito do vento



Espelhos quebrados
Demônios e anjos
Sem que eu soubesse qual dos dois era eu
Apenas estilhaços do olhar de Circe
Que refletiam semiescuridão
O semi-sorriso
Das túrbidas bordas


- Danillo Macedo -  



sexta-feira, 21 de julho de 2017

Epitáfio






Recolhi meus pertences
Dois livros velhos
Acho que James Joyce e Oscar Wilde

As coisas mudam de lugar
Mas, nem sempre se transformam
O pêndulo que ia e vinha
Feria-me no monótono transcurso
E continua ferindo-me agora

O que me deixa os olhos turvados
E os pés curvados (ou contorcidos)

E já não domino minhas ações
Perfídias involuntárias
Ou atos sobranceiros

A seta que me conduzia ao cume
Esqueceu-me de dizer que era o fastígio da morte



Desferi contra meu peito o último golpe
Que seria contra o teu...

Caminhei em círculos
Mas não se caminha em círculos
Despenca-se do ar
Mas uma alma chã não se despenca de nada
Dissolve-se na própria finitude
E come do pó da própria ruína

Tarde de mais...

Dos últimos versos que escrevi
Li palavras ininteligíveis
Mas não se lê o ininteligível
Revirei os olhos sobre letras desembestadas





Arrependi-me de tentar, em vão, coroar o ato de quitar-te a vida
E...
Sorri
Sob certa [auto] comiseração desalinhada
Tive pena de mim
Embebido no sangue achei tudo engraçado
Mas era delírio
Ao ver que
Na verdade
A vida que eu, então, arrasara
Meu anjo, minha obsessão
Não era a tua
Que encontrou seu próprio caminho
Era a minha
Que despencou sobre o solo
No crepitar dos espinhos!


 
 - Danillo Macedo -